domingo, 4 de junho de 2017

Festival Varilux de Cinema Francês 2017


É com alegria que anunciamos o "Festival Varilux de Cinema Francês 2017":



O nobre Festival Varilux de Cinema Francês 2017 que ocorrerá no período de 7 a 21 de junho, em 55 cidades do Brasil, distribuídas em 21 estados e Distrito Federal e apresenta 19 produções da cinematografia francesa.


Veja também algumas edições anteriores:

Festival Varilux de Cinema Francês 2016
Festival Varilux de Cinema Francês 2015
Festival Varilux de Cinema Francês 2014
Festival Varilux de Cinema Francês 2013
Festival Varilux de Cinema Francês 2012
Festival Varilux de Cinema Francês 2011

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Praia Campista - Macaé - RJ - Brasil

Praia Campista - Macaé - RJ - Brasil
Foto: Gladstone Peixoto

quarta-feira, 12 de abril de 2017

D. H. Lawrence - Vida e Obra



D. H. Lawrence
1885 - Em 11 de setembro, em Eastwood, Inglaterra, nasce David Herbert Lawrence.
1897 - David é admitido na escola secundária de Norttingham.
1902 - Deixa a escola e arruma um emprego de escriturário.
           Torna-se amigo de Jessie Chambers.
           Escreve os primeiros poemas.
1905 - Passa nos exames de admissão à Universidade de Nottingham.
           Começa a escrever seu primeiro romance: Pavão Branco.
1909 - A revista English Review publica alguns poemas de Lawrence.
1910 - Em 9 de dezembro morre sua mãe, Lydia Lawrence.
1911 - Em janeiro é publicado O Pavão Branco.
1912 - Conhece Frieda von Richthofen, esposa de seu ex-professor de francês.
           Lawrence parte com Frieda para a Alsácia-Lorena; depois vão para a Itália.
1913 - É publicado O Intruso.
            Lawrence termina de escrever Filhos e Amantes e inicia outro romance: Crepúsculo na Itália.
1914 - Lawrence e Frieda partem para Londres, onde se casam.
           Começa a trabalhar no romance que daria origem a Mulheres Apaixonadas.
1916 - É publicado Crepúsculo na Itália.
1917 - Lawrence e Frieda são expulsos da Cornualha sob suspeita de espionagem.
1919 - Com apenas 20 libras no bolso, Lawrence parte com Frieda para a Itália.
1920-21 - Lawrence escreve duas coleções de poemas, vários contos e o romance O Mar e a Sardenha.
1922 - Lawrence e a mulher viajam para o Ceilão e depois para a Austrália.
1923 - Escreve Canguru.
           Viaja para os Estados Unidos e depois para o México, onde fixa residência.
1925 - Começa a escrever Ternura, título que mais tarde seria mudado para O Amante de Lady Chatterley.
            Passa a dedicar-se à pintura.
1926 - Escreve A Serpente Emplumada.
1927 - Visita a região da Toscana.
            Com problemas de saúde, vai para a Suíça e depois para a Alemanha a fim de se tratar.
1928 - Publicado em Florença o romance O Amante de Lady Chatterley.
            Em Londres é realizada uma exposição de seus quadros.
1929 - Viaja com Frieda para Paris.
            Agrava-se seu estado de saúde.
1930 - Morre em Vence, França, no dia 2 de março, vítima de uma meningite tuberculosa.

Eastwood, perto de Nottingham, parecia mais uma aldeia do que uma cidade. Uma cidade de onde se extraía carvão havia séculos. No entanto, as minas eram quase um acidente na paisagem embelezada pelo arenito de cor viva, pelos carvalhos da floresta do lendário Robin Hood, pelas austeras colinas de calcário da província do Derbyshire.
Num dia qualquer, na segunda metade do século XIX, chegaram os capitalistas e as estradas de ferro. E o cenário aos poucos foi se modificando. Emprego não faltava, e os ganhos chegavam a ultrapassar as necessidades. Mas os homens de Eastwood não davam muita importância ao salário. Na verdade, desprezavam o dinheiro e as responsabilidades domésticas. Como desprezavam a claridade da superfície. Gostavam daquela vida, da camaradagem que os unia nos poços e se prolongava após o trabalho, no bar onde se sentavam para beber e conversar. Seu mundo era apenas aquilo: amizade, trabalho e um suor quase sempre negro. Depois vinha o resto: as mulheres e os filhos.
Na casa da família Lawrence viviam o casal e os cinco filhos. A mãe, uma ex-professora muito refinada, esforçava-se para dar aos filhos uma vida melhor. O pai era um homem rude, que as crianças quase não viam.
Nascido em 11 de setembro de 1885 David Herbert cresceu em um ambiente de conflitos e constante tensão entre os pais. Aos doze anos o menino foi admitido na escola secundária de Nottingham, depois de ganhar uma bosa de estudos. Não decepcionou: foi premiado em matemática, francês e alemão. Mais tarde passaria a dominar também o italiano e o espanhol.
Cinco anos depois deixou a escola e foi trabalhar como escriturário. Três meses mais tarde, acometido de uma grave pneumonia - que lhe arruinaria a saúde para o resto da vida -, teve de abandonar o emprego. Durante a convalescença começou a escrever poemas e conheceu Jessie Chambers, com quem manteria grande amizade. A jovem morava em  uma fazenda a poucos quilômetros da casa dos Lawrence. David a visitava com frequência e, além de lhe dar aulas de álgebra e francês, lia seus versos para ela.
Em 1902 tornou-se mestre-escola, e durante três anos lecionou para os filhos dos mineiros. Sua amizade com Jessie tornava-se cada vez mais sólida: com ela aprendeu a pintar e a tocar piano. Essa ligação quase platônica talvez lhe tenha aprimorado o espírito e aguçado a sensibilidade. Começou então a ler os grandes poetas: Baudelaire, Shakespeare, Cervantes, Maupassant.
Em 1905 passou nos exames para ingressar na Universidade de Nottingham, mas apenas a frequentaria no ano seguinte. Enquanto esperava começou a escrever O Pavão Branco, o primeiro romance. Absorvido por suas atividades didáticas, logo interrompeu o trabalho.
Ao deixar a universidade, em 1908, hesitou antes de decidir se aceitaria um posto na escola primária de Croydon. Sua mãe e Jessie censuram-no: não o queriam muito distante. Sem lhes dar ouvidos, partiu. A princípio seus métodos de ensino foram mal acolhidos, mas os bons resultados forçaram os superiores a admiti-los. Conquistada a confiança e a admiração de seus colegas, Lawrence encontrou a tranquilidade e o tempo necessários para retomar a literatura. Escreveu vários poemas e voltou a trabalhar na composição de O Pavão Branco.
Jessie não esqueceu o amigo. Ao contrário: ainda nesse ano de 1908 enviou alguns de seus poemas ao diretor da English Review. Em novembro de 1909 os versos foram publicados na revista, e Lawrence foi introduzido nos círculos literários de Londres. No ano seguinte a revista publicou um novo conjunto de poemas do jovem autor. E distante, muito distante de seu filho, a sra. Lydia Lawrence morreu de câncer no dia 9 de dezembro de 1910. As coisas agora tomavam novos rumos: em janeiro de 1911 foi publicado O Pavão Branco. Com esse livro, Lawrence conquistou os primeiros admiradores: George Eliot e Thomas Hardy. As dificuldades também começaram a surgir: algumas situações apresentadas no romance acarretaram-lhe a ameaça de  um processo por difamação. Sem se intimidar, continuou a escrever. Dessa vez a incomunicabilidade e a falta de calor entre as pessoas eram o tema de O Intruso, publicado em 1913. Entretanto seu espírito dinâmico o impedia a partir para outras terras, a conhecer novos ambientes.
Em 6 de abril de 1912 foi convidado a jantar na casa de Ernest Weekley, um ex-professor de francês, e aí conheceu Frieda von Richthofen, esposa do meste e mãe de três crianças. Entre conversas amenas e olhares sutis, Frieda e Lawrence enamoraram-se. Menos de um mês depois partiram juntos para Metz, na Alsácia-Lorena, onde o pai de Frieda era barão-governador de uma região militar. Na bagagem, além do manuscrito de Filhos e Amantes, Lawrence levava também um pouco de esperança e um pouco de angústia. Depois de uma entrevista tempestuosa com os pais de Frieda, o escritor acabou sendo aceito. Mas não se sentia à vontade ali e partiu com a mulher para a Itália, onde viveram por seis meses. Aí Lawrence terminou Filhos e Amantes e começou a escrever Crepúsculo na Itália.
A crítica teceu elogios a Filhos e Amantes, mas o público a censurou violentamente. Aliás as censuras acompanharam a vida literária de Lawrence, inúmeras vezes acusado de imoral e de pornográfico. Impassível, ele continuou denunciando o puritanismo falso e hipócrita da sociedade inglesa de seu tempo.
Em julho de 1914 - depois de receberem a notícia de que Weekley concedera o divórcio - Lawrence e Frieda partiram para Londres, onde se casaram no mês seguinte. Logo o romancista começou a trabalhar em As Irmãs - projeto que depois evoluiu para duas grandes obras: O Arco-íris e Mulheres Apaixonadas. Mas a guerra explodiu antes que os romances fossem publicados. Para Lawrence, o conflito representou um longo período de humilhação. Por ser alemã, Frieda foi posta sob vigilância e o casal decidiu refugiar-se no campo. Sem recursos, o escritor tentou colaborar na Times, mas não conseguiu. A publicação de Crepúsculo na Itália em 1916 foi um alívio para suas dificuldades financeiras. Em contrapartida, O Arco-íris, editado em 1915, foi censurado e apreendido alguns meses depois.
Os ganhos com a publicação dos livros Amores, em 1916, e Look! We Have Come Through - Olhe! Conseguimos, - em 1917, não foram suficientes para melhorar sua vida.
Para agravar a situação, no fim de 1917 o casal foi expulso da Cornualha sob suspeita de espionagem. Lawrence e Frieda seguiram então para Londres, onde formaram uma comunidade de amigos.
Ao fim da guerra, Lawrence e Frieda deixaram Londres, com 20 libras oferecidas por um amigo. Em novembro de 1919, alimentados de novas esperanças, desembarcaram na Itália. Seguiram para a Sicília e instalaram-se numa fazenda, onde permaneceram por dois anos, intercalados por uma longa viagem à Alemanda, Áustria e Itália, entre abril e setembro de 1921.
Esse foi um período fecundo: Lawrence escreveu duas coleções de poemas - Birds, Beasts and Flowers - Pássaros, Animais e Flores - e Tortoises -, vários contos e o romance Sea and Sardinia - O Mar e a Sardenha - inspirado numa rápida viagem. A Oxford Universty Press, interessada nas teorias do escritor, encomendou-lhe um ensaio sobre a evolução histórica da Eurpean History - Movimentos na História Européia -, trabalho assinado por Lawrence H. Davidson. O escritor ocultava-se sob pseudônimo por ressentir-se ainda da violenta reação da crítica contra Mulheres Apaixonadas. Concluída durante a estada do escritor na Cornualha, a obra foi rejeitada por vários editores ingleses, até finalmente ser impressa nos Estados Unidos em 1921.
Provocou um escândalo na Inglaterra e recebeu os adjetivos mais desairosos. Sem conseguir compreender as teses de Lawrence, os críticos o atacavam. Aos poucos, porém, foram silenciando. E a calmaria que se seguiu à tempestade de censuras propiciou o lançamento, em 1922, de A Vara de Araão.
Lawrence começou a voltar-se para a literatura americana. Quando planejava uma viagem aos Estados Unidos, recebeu um convite da milionária Mabel Dodge-Luban para passar uma temporada no Novo México. Todavia, uma crise de bronquite o impediu de aproveitar a oportunidade.
No início de 1922, já restabelecido, partiu com Frieda para o Ceilão. Algum tempo depois passaria uma curta temporada na Austrália. Em seguida viveu com Frieda num aglomerado de mineiros em Nova Gales do Sul. Nessa época instalou-se às margens do lago Chapala, nas proximidades de Guadalajara, México, onde escreveu A Serpente Emplumada, que só seria publicada em 1926.
O México vivia uma época de convulsões políticas, e Frieda, apavorada com a violência geral, suplicou-lhe que voltassem à inglaterra. Lawrence acabou cedendo. Em Nova York, já arrependido, mandou a mulher continuar a viagem sozinha. Enviou alguns artigos e ensaios para a revista Adelphi e voltou para Jalisco, no México.
Frieda escrevia-lhe incesssantemente, pedindo-lhe que fosse ao seu encontro. A força do amor foi grande, e ele retornou à Inglaterra, onde escreveu St. Mawr e outros Contos, The Woman who Rode Away - A Fugitiva - e Reflections on the Death of a Porcupine - Reflexões sobre a Morte de um Porco-Espinho -, todas publicadas no decorrer de 1925.
Em fins de 1925, sob o título de Tenderness - Ternura - , Lawrence iniciou na Itália o romance O Amante de Lady Chatterley. A obra não absorvia todo o interesse de Lawrence, que, nessa época, estava se dedicando à pintura e começando a executar uma série de quadros, mais tarde expostos em Londres.
Por problemas de saúde, seu trabalho começou a ser interrompido com frequência. Em abril de 1927, quando visitava a Toscana, uma nova e mais grave recaída o obrigou a emigrar para a Suíça e para a Alemanha, onde alguns  médicos consideravam irreversível a sua situação.
Sem se abater, em outubro retornou a Florença e trabalhou duramente em Tenderness, agora denominado John Thomas e Lady Jane, título propositadamente provocativo, já que na tradição popular inglesa esses nomes designam os órgãos sexuais do homem e da mulher. A ideia evoluiu e o romance finalmente recebeu o título definitivo: O Amante de Lady Chatterley, publicado em Florença em 1928.
O Amante de Lady Chatterley trata da relação entre um homem e uma mulher. O livro foi acusado de inverossímil, mas, na verdade, conta a própria história da vida de Lawrence com Frieda. A imprensa não poupou severas críticas: "esgoto da pornografia francesa", "o livro mais sujo da literatura inglesa". O governo britânico imediatamente proibiu na Inglaterra, e durante 32 anos manteve a proibição.
O romance, contudo, circulava às escondidas, e da forma que Lawrence mais deplorava: era visto e lido de uma maneira que tornava o sexo um assunto furtivo, proibido, ou uma brincadeira efêmera. O verdadeiro sentido de seu pensamento - a busca da pureza primitiva, que faz de O Amante de Lady Chatterley um dos maiores romances ingleses - durante muito tempo passou despercebido da crítica e do público.
Em 1928 Lawrence estava com tuberculose. Angustiado via multiplicarem-se, à sua revelia, as edições espúrias de seu último romance com o texto adulterado.
Inquieto com o alarmante estado de saúde do escritor, o amigo Richard Aldington, também escritor, levou-o para a ilha de Port-Gross. Aí Lawrence escreveu artigos, notas e comentários para os jornais, aproveitando o escândalo e a consequente curiosidade suscitada pelo livro.
Em 1929 viajou para Paris e hospedou-se na casa do escritor e amigo Aldous Huxley. Trabalhando duro, ainda conseguiu publicar uma edição popular e integral do romance. Em abril viajou para a Espanha. Enquanto isso sua exposição de pintura fazia sucesso em Londres, a despeito de a imprensa considerá-la "o maior insulto jamais feito ao público londrino".
Depois de passar quinze dias na Ligúria com Hurley, Lawrence partir para Florença, onde foi acometido de uma violenta hemoptise. Atendendo aos apelos de Frieda, procurou um médico, que o aconselhou a fazer um tratamento no sanatório de Vence, na França.
Certo de que logo se restabeleceria, escreveu a todos os amigos anunciando sua alta. Foi um desfile de visitas na casa em que  Huxley o acomodou juntamente com Frieda, em uma vila de Vence.
Os dias arrastaram-se tristemente para Lawrence. Ele precisava levantar-se do leiro e caminhar, sentir o ar puro, ver pessoas. Dar a mão a Frieda e com ela conversar longamente. Tudo isso ele fez. Até ser acometido por uma fatal meningite tuberculosa.
O olhar de Lawrence estava fixado em sua companheira. Talvez Frieda quisesse dizer alguma coisa. Mas não havia tempo para mais nada. Huxley aproximou-se e fechou os olhos do amigo. Frieda foi até a janela para contemplar o que restou da paisagem. Era o dia 2 de março de 1930. David Herbert Lawrence tinha pouco mais de 44 anos.




sábado, 8 de abril de 2017

Italo Calvino - Fábulas Italianas


Italo Calvino - Fábulas Italianas

Calvino, Italo - Fábulas italianas: coletadas na tradição popular durante os últimos cem anos e transcritas a partir de diferentes dialetos - Italo Calvino; tradução Nilson Moulin. - São Paulo : Companhia das Letras, 2006.

Trabalho fenomenal de Italo Calvino, que teve como impulso inicial o desafio para produção do livro pela necessidade que surgiu de uma exigência editorial: pretendia-se, ao lado dos grandes livros de contos populares estrangeiros, uma antologia italiana. Mas que texto escolher? Existiria um "Grimm italiano"? se pergunta o autor, na introdução do livro.

O autor ao terminar o complexo trabalho, mas antes tem a real visão de que é "um salto no escuro, como pular de um trampolim e mergulhar num mar em que há um século e meio só se atreve a entrar quem é atraído não pelo prazer esportivo de nadar em ondas insólitas, mas por um apelo do sangue, como para salvar algo que se agita lá no fundo e que, caso contrário, se perderia sem voltar à tona".

Longa introdução o autor resenha todo o trabalho para conseguir catalogar e priorizar toda a narrativa encontrada desta arte popular visando resgatar, retratar a história escrita e contada do povo italiano.

"São, tomadas em conjunto, em sua sempre repetida e variada casuística de vivências humanas, uma explicação geral da vida nascida em tempos remotos e alimentada pela lenta ruminação das consciências camponesas até nossos dias; são o catálogo do destino que pode caber a um homem e a uma mulher, sobretudo pela parte de vida que juntamente é o perfazer-se de um destino: a juventude, do nascimento que tantas vezes carrega consigo um auspício ou uma condenação, ao afastamento da casa, às provas para tornar-se adulto e depois maduro, para confirmar-se como ser humano. E, neste sumário desenho, tudo: a drástica divisão dos vivos em em reis e pobres, mas sua paridade substancial; a perseguição do inocente e seu resgate como termos de uma dialética interna a cada vida; o amor encontrado antes de ser conhecido e logo depois sofrimento enquanto bem perdido; a sorte comum de sofrer encantamentos, isto é, ser determinado por forças complexas e desconhecidas, e o esforço para libertar-se e autodeterminar-se como um dever elementar, junto ao de libertar-se libertando; a fidelidade a uma promessa e a pureza de coração como virtudes basilares que conduzem à salvação e ao triunfo; a beleza como sinal de graça, mas que pode estar oculta sob aparências de humilde feiura como um corpo de rã; e sobretudo a substância unitária do todo: homens animais plantas coisas, a infinita possibilidade de metamorfose do que existe."

Explica ainda que o trabalho de natureza híbrida é também "científico" pela metade ou, em três quartos, sendo a quarta parte fruto de arbítrio individual.

Surpreendente é sua conclusão após o minucioso trabalho de que "as fábulas são verdadeiras."

Quem é capaz de duvidar?

São elas:
Joãozinho Sem Medo;
Corpo Sem Alma;
O Pastor que não crescia nunca;
Nariz de Prata;
A barba do conde;
A menina vendida com as peras;
O príncipe canário;
Os Biellenses, gente dura;
A linguagem dos animais;
As três casinhas;
A terra que não se morre nunca;
As três velhas;
O príncipe-Caranguejo;
O menino no saco;
A camisa do homem feliz;
Uma noite no paraíso;
Jesus e são Pedro no Friul;
O anel mágico;
O braço de morto;
A ciência da preguiça;
Bela Testa;
Luna;
O corcunda Sapatim;
O Ogro com penas;
Belinda e o Monstro;
A rainha Marmota;
O filho do mercador de Milão;
O palácio dos macacos;
O palácio encantado;
Cabeça de búfula;
A filha do sol;
O florentino;
O presente do vento do norte;
A moça-maça;
Salsinha;
O Pássaro Bem Verde;
Grãozinho e o boi;
A água na cestinha;
Catorze;
João Bem Forte que a quinhentos deu a morte;
Galo-cristal;
O soldado napolitano;
Belmel e Belsol;
Chico Pedroso;
O amor das três romãs;
José Peralta que, quando não arava, tocava flauta;
Corcunda, manca e de pescoço torto;
A falsa avó;
O ofício de Francisquinho;
Crie, Croc e Mão de Gancho;
A primeira espada e a última vassoura;
Os cinco desembestados;
Eiro-eiro, burro meu, faça dinheiro;
Leombruno;
Os três órfãos;
O reizinho feito à mão;
O rei-serpente;
Cola-peixe;
Grátula-Bedátula;
Desventura;
A cobra Pepina;
Dono de grãos-de-bico e favas;
O sultão com sarna;
Alecrina;
Diabocoxo;
A moça-pomba;
Jesus e são Pedro na Sicília;
O relógio do barbeiro;
A irmão do conde;
O casamento de uma rainha com um bandido;
Pelo mundo afora;
Um navio carregado de...;
O filho do rei no galinheiro;
A linguagem dos animais e a mulher curiosa;
O bezerrinho com chifres de ouro;
A velha da horta;
A rainhazinha com chifres;
Yufá;
O homem que roubou os bandidos;
Santo Antônio dá o fogo aos homens;
Março e o pastor;
Pule no saco!

JOÃOZINHO SEM MEDO

"Era uma vez um menino chamado Joãozinho Sem Medo, pois não tinha medo de nada. Andava pelo mundo e foi parar em uma hospedaria, onde pediu abrigo.
- Aqui não tem lugar - disse o dono -, mas, se você não tem medo posso mandá-lo para um palácio.
- Por que eu sentiria medo?
- Porque ali a gente sente e ninguém saiu de lá a não ser morto. De manhã, a Companhia leva o caixão para carregar quem teve a coragem de passar a noite lá.
Imaginem Joãozinho! Levou um candeeiro, uma garrafa, uma linguiça, e lá se foi.
À meia-noite, comia sentado à mesa quando ouviu uma voz saindo da chaminé:
-Jogo?
E Joãozinho respondeu:
- Jogue logo!
Da chaminé desceu uma perna de homem. Joãozinho bebeu um copo de vinho.
Depois a voz tornou a perguntar:
- Jogo?
E Joãozinho:
- Jogue logo!
E desceu outra perna de homem. Joãozinho mordeu a linguiça.
- Jogo?
- Jogue logo!
E desceu um braço. Joãozinho começou a assoviar.
- Jogo?
- Jogue logo!
Outro braço.
- Jogo?
- Jogue!
E caiu um corpo que se colou nas pernas e nos braços, ficando de pé um homem sem cabeça.
- Jogo?
- Jogue!
Caiu a cabeça e pulou em cima do corpo. Era um  homenzarrão gigantesco e Joãozinho levantou o copo dizendo:
- À saúde!
O homenzarrão disse:
- Pegue o candeeiro e venha.
Joãozinho pegou o candeeiro mas não se mexeu.
- Passe na frente! - disse Joãozinho.
- Você! disse o homem.
- Você! disse Joãozinho.
Então o homem se adiantou e de sala em sala atravessou o palácio, com Joãozinho atrás, iluminando. Debaixo de uma escadaria havia uma portinhola.
- Abra! Disse o homem a Joãozinho.
- Você! - disse Joãozinho.
Então o homem se adiantou e de sala em sala atravessou o palácio, com Joãozinho atrás, iluminando. Debaixo de uma escadaria havia uma portinhola.
- Abra! - disse o homem a Joãozinho.
E Joãozinho:
- Abra você!
E o homem abriu com um empurrão. Havia uma escada em caracol.
- Desça - disse o homem.
- Primeiro você - disse Joãozinho.
Desceram a um subterrâneo, e o homem indicou uma laje no chão.
- Levante!
- Levante você! - disse Joãozinho, e o homem a ergueu como se fosse  uma pedrinha.
Embaixo havia três tijelas cheias de moedas de ouro.
- Leve para cima! - disse o homem.
- Leve para cima você! - disse Joãozinho. E o homem levou uma de cada vez para cima.
Quando foram de novo para a sala da chaminé, o homem disse:
- Joãozinho, quebrou-se o encanto! - Arrancou-se uma perna, que saiu esperneando pela chaminé. - Destas tigelas uma é sua. - Arrancou-se um braço, que trepou pela chaminé.
- Outra é para a Companhia que virá buscá-lo pensando que você está morto. - Arrancou-se também o outro braço, que acompanhou o primeiro. - A terceira é para o primeiro pobre que passar. - Arrancou-se outra perna e ele ficou sentado no chão. - Pode ficar com o palácio também. - Arrancou-se o corpo e ficou só a cabeça no chão. - Porque se perdeu para sempre a estirpe dos proprietários deste palácio, - E a cabeça se ergueu e subiu pelo buraco da chaminé.
Assim que o céu clareou, ouviu-se um canto: Miserere mei, miserere mei, e era a Companhia com o caixão que vinha recolher Joãozinho morto. E o veem na janela, fumando cachimbo.
Joãozinho Sem Medo ficou rico com aquelas moedas de ouro e morou feliz no palácio. Até um dia aconteceu que, virando-se, viu sua sombra e levou um susto tão grande que morreu.

Italo Calvino (1923-85) nasceu em Santiago de Las Vegas, Cuba, e foi para a Itália logo após o nascimento. Participou da resistência ao fascismo durante a guerra e foi membro do Partido Comunista até 1956. Publicou sua primeira obra, A trilha dos ninhos de aranha, em 1947.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Mario Vargas Llosa - O herói discreto



Mario Vargas Llosa - O herói discreto
Na estante, Revista Cidade Nova - Março 2017 - n. 3 - pág. 47, Andrea Russo Vilela

"Neste mês de março (dia 28), o escritor peruano Mario Vargas Llosa completa 81 anos. Devo admitir que é um de meus autores favoritos. Ou melhor, favorito ainda é pouco para descrevê-lo e, em homenagem ao seu aniversário, gostaria de apresentá-lo a partir de como ele próprio definiu seu ofício em texto publicado no Correio Braziliense: "Escrever é um trabalho que requer perseverança, horários, impor-se uma disciplina e respeitá-la, e creio que isso é fundamental. A razão pela qual me submeto com tanta facilidade a essa disciplina em meu trabalho é porque não tenho a sensação de que seja um trabalho, e sim um prazer".
Nascido em 28 de março de 1936, em Arequipa, Vargas Llosa é um intelectual de grande vulto e um dos mais importantes nomes da literatura latino-americana e mundial na atualidade. Jornalista, acadêmico (doutor em Filosofia e Letras), dramaturgo e cidadão engajado em questões políticas peruanas, já escreveu mais de 40 romances publicados (traduzidos para 30 idiomas), além de peças para teatro e ensaios. Vencedor de prêmios como Príncipe de Astúrias (1993) e Miguel de Cervantes 2006), ele foi agraciado com o Nobel de Literatura em 2010 pelo conjunto de sua obra e "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual".
Confesso a dificuldade de escolher apenas uma de suas obras para indicar. Vargas Llosa tem estilo enraizado. Não é escritor com foco só na ficção, vai além disso. Transforma realidade e fatos históricos, que marcam um determinado espaço e tempo em ficção, sem distorcê-los. Tudo está ligado: literatura, realidade, história e ficção são indissolúveis. Ele os costura de forma a dar impressão de que nasceram juntos.
Como, ao apresentá-lo, detive-me em seus livros mais antigos, indico um romance mais atual: O herói discreto (2013), que aborda questões bastante pertinentes ao atual cenário brasileiro: honestidade - ou melhor, a falta dela -, ganância, egocentrismo e impunidade. Duas histórias seguem paralelas. A primeira é a do empresário do ramo dos transportes Felícito Yanaqué, pai de dois filhos e casado com Gertrudes. Correto e austero, é vítima de extorsão feita por meio de uma carta anônima com ameaças à sua empresa e sua família.
O empresário se recusa a ceder à chantagem, procura a polícia e o caso se torna assunto da pacata cidade de Piura, ao norte do Peru. A segunda história se passa na capital, Lima, onde Ismael Carrera, 80 anos, viúvo, empresário bem-sucedido e proprietário de uma seguradora sofre um infarto, fica à beira da morte e escuta seus dois filhos discutirem sobre sua suposta morte ao lado de seu leito no hospital.
Recuperado, resolve se vingar e escandaliza a família casando-se com Arminda, antiga empregada doméstica da família.
Duas histórias aparentemente sem ligação se entrelaçam no final - e surpreendem o leitor. O livro é um melodrama carregado de humor, suspense e mistério. As questões sociais, o amor, o ódio na relação entre pai e filhos, as fraquezas humanas, a traição, a vingança e o perdão permeiam as duas histórias e nos questionam sobre o que é certo e errado. A leitura é fácil e flui prazerosamente. Desarme-se e dispa-se de preconceitos e julgamentos para desfrutar o enredo. Mas, ao concluir a  leitura da última página, reflita e tire as suas conclusões sobre as complexas relações humanas e como você vem lidando com elas.
Vargas Llosa mais uma vez aponta temas polêmicos e nos conta com maestria a história real de uma vida fictícia. Boa leitura!"

domingo, 12 de março de 2017

Granta 10 - António Lobo Antunes - Cartas de Guerra


Granta 10 - Medidas Extremas

NOTA DO EDITOR
Estas "cartas de guerra" foram escritas por Antônio Lobo Antunes entre janeiro de 1971 e janeiro de 1973, período em que participou da guerra colonial em Angola como médico do exército português. Contava, então, 28 anos, e não havia ainda publicado seu primeiro romance. As cartas foram escritas para sua primeira mulher, com quem se casara em agosto de 1970, e que engravidaria no mês seguinte. O que se segue é uma seleção de 12 cartas, em que fala de amor, medicina, literatura e guerra. As cartas fazem parte do volume D´este viver aqui neste papel descripto, organizado por suas filhas e publicado em Portugal pela Dom Quixote em 2005.

27.1.1971

Minha namorada querida
Aqui cheguei, finalmente, a Gago Coutinho, depois de uma viagem apocalíptica, como nunca pensei ter de fazer em qualquer época da minha vida: partimos às 3 horas da manhã dia 22, em autocarros tipo Claras de Luanda para Nova Lisboa, através de um cenário maravilhoso, mas que à 23a. hora começou a cansar-me. Chegámos de madrugada a Nova Lisboa, dormimos nas camionetas, e às 3 da tarde do dia 29 (ou 23?), depois de 600km de autocarro, meteram-nos no comboio para o Luso: 2 dias de viagem em vagões de 4a classe - essa famosa invenção dos ingleses para os habitantes do 3. mundo, e que a companhia dos caminhos de ferro de Benguela inglesmente adoptou -, em grandes molhos de pernas e braços, de armas e de cabeças. Essas carruagens possuem apenas 3 únicos bancos longitudinais: dois ao correr das janelas e o último, duplo, ao centro, como uma risca ao meio. Como faltavam vagões, assistiu-se então a um espetáculo indescritível: de todo o lado surgiam membros que pareciam não pertencer a nenhum corpo. Cheguei a coçar a minha cabeça com uma mão alheia. Aí dormia, ou fingia dormir, e comia conservas que inundavam o chão de latas e de molhos, e que me estragaram completamente as vísceras. Deportados judeus para um campo de concentração nazi. E depois veio o inferno, ou inferno maior, o sétimo inferno inversamente comparável ao 7. céu de Maomé: agarram em nós e meteram-nos em camionetas de cargas para os 500 km minados que separam Luso de Gago Coutinho: dois bate-minas à frente (duas berliets carregadas de sacos de areia) e depois uma extensa fila de carros, onde seguíamos de arma apontada numa tensão de ataque iminente. Felizmente não houve minas nem emboscadas, mas aconteceu-nos uma coisa horrível: a camioneta em que eu seguia, a última (por sorteio) partiu a direcção, a uma velocidade considerável, e esmagou-se numa vala. Éramos 21: três braços partidos, 2 pernas, várias outras lesões sortidas, e eu com 6 pontos no lábio e 3 na língua: ainda não a sinto. Caímos todos uns por cima dos outros, e pensei que tivesse sofrido mais do que isso porque o corpo dava-me a sensação de se encontrar multiplamente rachado. Mas tudo passou, continuo a resistir, e amo-te.
Isto é o fim do mundo: pântanos e areia. A pior zona de guerra de Angola: 126 baixas no batalhão que rendemos, embora apenas com dois mortos, mas com amputações várias. Minas por todo o lado. A Zâmbia quase à vista. Um clima com uma amplitude térmica de 30 e tal graus. E a minha vida via encher-se de aventuras arriscadas: em princípio ficarei aqui 4 meses, e irei, semanalmente, de avião, a Cessa e Mussuma, onde há 2 pelotões destacados. Nos 4 meses seguintes partirei para Ninda, ou Chiúme, onde estão as companhias operacionais, e andarei de um lado para o outro, na picada, de viatura. Virei de férias em Outubro. E em Novembro baixo de novo. Isto em princípio, porque tudo, claro, pode ser alterado. A instabilidade e improvisação caracterizam esta guerra.
Estou estafado e em tiras, mas bem disposto e com coragem. Hei-de voltar, e resistir,, para junto de ti e do nosso filho. A miséria do negro é assustadora. As senzalas inundam-se de esqueletos subalimentados, em contraste com a majestosidade da paisagem, de uma beleza terrível.
Minha querida, eu adoro-te. O teu telegrama, que me assustou ao recebê-lo (tive medo de qualquer novidade desagradável) foi para mim uma surpresa estupenda. Vamos a ver se consigo, agora que devo principiar a depositar um pouco o cansaço, o sono e a fome que trago em atraso, se começo a escrever à famíllia. Milhões de beijos, de ternuras e de abraços. E não deixes nunca de gostar de mim.
Meu amor meu amor meu amor eu gosto de tudo de ti. E tenho muitas e muitas saudades tuas. Lembra-te de mim. Cumprimentos meus ao nosso filho. Eu adoro-vos aos dois.
António

Diz-me como estás e onde estás, se tens estudado, o que te tem acontecido, os progressos da criança, tudo. Conta-me de tudo. E vai dizendo aos outros de mim, porque estou sem grande ânimo para escrever. Diz-lhes isso também. Vamos a ver se arranjo coragem para lhes mandar notícias.
Gosto tanto tanto tanto de ti!
Milhões de beijos!


31.1.71

Minha jóia querida
Começou a guerra a sério para nós. Uma das companhias, colocada em Ninda, foi atacada por morteiros e metralhadoras e as consequências, embora relativamente pouco importantes para nós (um morteiro caiu na pista de aviação e dois na parada), dão um bocado que pensar. Os dois aviõezitos da força aérea passaram a tossir por cima de nós e foram bombardear presumíveis acampamentos inimigos. Entretanto, encontrou-se, por aqui, papelada vária anunciando ataques para os dias 3, 4 e 5, em que se comemora o aniversário do MPLA. Para mim, o problema maior é o das viagens de avião que farei terça ou quarta, pois além de tudo o mais, têm caído aqui chuvadas gigantescas: em cinco minutos fica tudo alagado de charcos e poças imensas, como se chovesse durante horas e horas. E as trovoadas, fantásticas de intensidade, desabam em cima de nós numa cadência de Apocalipse. E ainda só passaram 15 dias, o que me faz começar a pensar que estou a pagar um preço muito caro pela possibilidade de voltar a viver aí um dia - que me parece cada vez mais distante.
Continuo sem notícias, mas a verdade é que também não tem havido avião. E de resto, escrever à família tira-me a vontade de escrever seja o que for a mais. Vamos a ver se amanhã, segunda-feira - é hoje um triste domingo chuvoso e sem esperança - começo, de novo, a pensar no livro, embora viva habitado por uma lassidão imensa. Apetece-me, apenas, sentar-me sem fazer nada à espera que o tempo passe. Que vontade eu tenho de me ir embora daqui! O comando distribuiu as coisas de tal forma que apenas aí poderei ir em Outubro, o que mais me agrava a tristeza. Curiosamente, nasceu-me ontem uma poesia, mas consegui afogá-la, sem a escrever, dentro da minha cabeça, e, hoje, já me esqueci dela. (Estou, de resto, vagamente arrependido.)
Meu amor eu tenho  muitas saudades tuas, e de tudo o que me liga a ti. Sinto-me tão só, no entanto, e tão submergido, que tenho quase a certeza de que não te voltarei a ver. Tudo me faz falta neste deserto estúpido e, não sei porquê, levo o tempo a pensar na nossa casa do Arco do Cego, nos móveis, nos cheiros e nas coisas. Já não sei o que é vestir outra roupa que não sejam fardas e fardas. Os atiradores vão começar a sair e eu só espero não me virem chamar para o helicóptero das evacuações: à força de viver com estes tipos custa-me um bocado a admitir que lhes possa suceder qualquer coisa...
Desculpa-me esta carta tão desanimada e desanimadora, mas o cinzento do tempo não me ajuda: esperemos dias melhores. Uma coisa, entretanto, que o Jorge disse, numa carta, começo eu a compreender: não voltarei a ser a pessoa que fui, nunca mais.
Milhões e milhões e milhões de beijos
António

PS. Supiro pelos teus retratos. Tira-os, em qualquer sítio, uma centena, pelo menos, e manda-mos com a máxima urgência. Eu adoro-te mais do que pensava poder vir, um dia, a gostar de alguém.
Saudades ao Toino, também ele me faz falta.



2.2.71

Minha joia adorada

Continua a chover impiedosamente, e, com grande espanto meu, está frio. Dentro de alguns meses, ao que me disseram, no tempo do cacimbo, teremos aqui temperaturas negativas: começo a arrepender-me de ter deixado o pijama grosso no Vera Cruz, juntamente com umas ceroulas e uma camisola interior.
Ontem, o outro batalhão foi-se embora e ficámos sozinhos neste deserto de meu tempo. Começo a sentir o cheiro de serapilheira dos negros. Matilhas incomensuráveis de cães diversos vagueiam livremente no quartel, trazidos por sucessivos batalhões que por aqui passaram. A maioria deles vive cheia de pústulas, e muitos coxeiam. Por proposta minha vão ser arrebanhados num molho de trelas e largados o mais longe possível por um grupo de combate qualquer, para evitar doenças ae mordeduras de animais não vacinados. O poema do outro dia continua a perseguir-me, a mim, o algoz dos cães, faz-se sozinho na minha cabeça, maça-me e insiste, e até arranjou um título para si mesmo. Chama-se HELDERBERG COLLEGE, que é o nome impresso numa caixa de cartão que apodrece no topo de um armário do meu quarto, e começa assim:
e senti, então um grande medo de morrer.
Mas eu, claro (já me conheces!), não me dou por achado (acho piada a esta expressão) nem lhe ligo nenhuma.
Levo já algumas horas de voo nestes pássaros precários, quer em evacuação de feridos quer em visitas aos destacamentos. Hoje, estava em Ninda, fazendo a consulta dos nativos quando ouvi um estrondo abafado e uma subida de fumo. Uma mina tinha acabado de rebentar debaixo de uma viatura nossa, com sei feridos, felizmente pouco graves. O ataque, à morteirada, acabou por ter poucas consequências, devido a uma sorte incrível. Havia estilhaços por todo o lado. Um deles foi entrar no quarto de um oficial e partiu o fio do candeeiro meio metro acima da cabeça dele. A rádio  Zâmbia, que ouvimos todas as noites, declarou ter feito 3 mortos e 16 feridos, e anuncia para amanhã, dia 4, aniversário do MPLA, o nosso total aniquilamento. Entretanto acabo de receber um maço de cartas, que vê todas juntas: muitas de ti, três da minha velha , uma do Manuel, outra da tia Gogó. Gostava realmente de ler o livro do Cortázar, embora me faltem o tempo e a disposição. Daqui até ao fim da semana, se as condições melhorarem, vamos ver se começo a pensar noutras coisas para além dos doentes e da minha própria sobrevivência.
As tuas cartas foram para mim uma grande alegria. As minhas saudades são muitas, o meu amor por ti muito grande, enorme, e só espero sair daqui vivo para to poder dizer boca a boca. Estou hoje mais calmo e com mais coragem, apesar de ter voado, desde as 7 da manhã, perto de cinco horas, por vezes debaixo de temporais incríveis. (Tudo tremia naquela merda.) Quero que saibas que te amo muito e muito. Tudo.
António

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Elena Ferrante - A filha perdida

Elena Ferrante - A filha perdida

Na Estante, por Andrea Russo VilelaRevista Cidade Nova - Fevereiro 2017n. 2pág. 47.

"Dediquei alguns dias de minhas férias para conhecer um pouco da obra e da trajetória literária de uma nova escritora que vem dando o que falar. Se nome, ou melhor, pseudônimo, é Elena Ferrante, uma italiana que optou por manter sua identidade em segredo.

Elena concede poucas entrevistas, sempre por escrito e intermediada por seus editores italianos. Como ela mesma afirma, optou pelo anonimato para preservar sua liberdade de escrita e, de certa forma, não deixar sua imagem influenciar na recepção de seus livros pelo público. As obras dela abordam o universo feminino a partir de uma narrativa realista, seca, dura, sem amarras ou meias palavras. Elena retrata mulheres comuns, mães, filhas, amigas, mas de forma nada romanceada. O feminino de Ferrante não tem nada de cor de rosa. Escreve desde 1991, data do primeiro romance, L´amore molesto (Um estranho amor), sucesso de crítica e vendas. A obra inspirou uma adaptação para o cinema.

No Brasil a produção literária de Elena desembarcou em 2015 com a série Napolitana, que publicou as obras A amiga genial, História do novo sobrenome e Dias de abandono.

Qual o motivo de seu sucesso?

Elena consegue seduzir, envolver, transportar, provocar, encantar, causar angústia e raiva à medida que o leitor avança página a página.

Escolhi como indicação para este mês o livro A filha perdida, que aborda a temática da maternidade sob o ponto de vista um tanto quanto peculiar: o amor, a felicidade e a realidade que envolvem as agruras de ser mãe. O dilema de ser o que a sociedade espera de toda mulher: boa mãe - e o preço do julgamento quando não se segue ou se enquadra nos padrões tidos como "corretos".
Como mãe de uma garota de 18 anos, à medida que fui avançando na leitura, duas questões mexeram muito comigo: todas as mulheres realmente nasceram para ser mães?
O amor pelos filhos é fato, nada se assemelha, e ele é pulsante, forte e vigoroso, mas não pode subjugar a essência da mãe.
A leitura é simples, fluida e potente.
Cenas e falas aparentemente banais são complexas e significativas.
A honestidade de sentimentos da protagonista pode despertar em você ideias que já passaram pela sua cabeça - mas não se sinta mal, a história vale a pena.

Em A filha perdidaElena Ferrante narra a história de Leda, uma professora universitária, carente e carregada de vaidade intelectual, chegando na faixa dos 50 anos, mãe de duas jovens já adultas que resolvem morar com o pai no Canadá.
Após a partida das filhas, Leda resolve tirar férias e segue para uma praia.

Você pode se perguntar se ela vive a síndrome do ninho vazio ou se sente-se livre da responsabilidade materna. Porém nada é tão simples na ótica de Ferrante. A história seria fácil se esse fosse o tema, mas o ponto central vai muito além de saber o que fazer com a liberdade de não estar mãe. Na praia, Leda observa uma família italiana grande e muito barulhenta que a faz lembrar da própria família. Dois membros dessa família destacam-se por estarem sempre juntas: Nina, uma jovem mãe, e Eleba, sua filhinha que não se separa da boneca (atenção a esta boneca no contexto da história).

A partir daí a protagonista não consegue mais parar de observá-las, enquanto tece pré-julgamentos ao comportamento delas que a incomoda a ponto de causar inveja. 

Leda revive memórias relacionadas às suas filhas, ao seu casamento, ao relacionamento com a própria mãe e a ela mesma enquanto filha. Ela nos mostra todos os seus questionamentos, entre eles o que é na verdade ser mãe. A filha perdida é um romance curto, mas carregado de significado que fará você reavaliar escolhas e questionar julgamentos."


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Ransom Riggs - Contos Peculiares


Ransom Riggs - Contos Peculiares

Contos Peculiares, de Ransom Riggs, belíssima ilustração por Andrew Davidson, Millard Nullings (org.), edições Syndrigast.


Surpreendente! 

O livro tem como conto inicial  o primoroso "Os esplêndidos canibais" que já faz valer a aquisição da obra.

Os esplêndidos canibais aborda temas como educação financeira, convivência social, entre outros temas, como valores morais, que são fortemente apontados na história que se passa na aldeia de Swampmuck onde viviam de forma bastante humilde os peculiares que deixaram vender seus membros para um grupo de canibais em troca de melhores condições financeiras para suas vidas apresentando novo status social, com casas cada vez maiores e melhores em detrimento cada vez maior de seus corpos físicos e sua liberdade cada vez mais comprometida em detrimento da mutilação a que estavam expostos. Final surpreendente por esboçar claramente a alma humana e suas fraquezas.

O leitor fica preso à narrativa que utiliza a técnica de suspense crescente quanto ao destino dos personagens.

Li somente os contos: Os esplêndidos canibais,  A princesa da língua bifurcada e A primeira ymbryne, excelente história, o que já foi suficiente para qualificar como um dos melhores livros de contos já lidos.

Por certo um belo livro de cabeceira com a capa e o material gráfico impecáveis. 

O tom do livro remonta a nostalgia das histórias do livro "As Mil e Uma Noites", por ser uma coletânea de folclore passado de geração a geração desde tempos imemoriais, portadores de um conhecimento secreto, onde há informações importantes para a sobrevivência de um peculiar neste mundo hostil, conforme aponta na apresentação sob clima de suspense ao leitor.

Demais histórias:
A mulher que era amiga de fantasmas;
Cocobolo;
As pombas (da Catedral) de St. Paul; 
A menina que domava pesadelos;
O gafanhoto;
O garoto que podia controlar o mar;
A história de Cuthbert.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Marie Kondo - A mágica da arrumação


Marie Kondo - A mágica da arrumação

Sempre gostei do tema organização. Foi algo que desenvolvi de forma natural pelo hábito de querer ver os objetos nos lugares devidos e de encontrá-los quando necessito deles.

Certa vez, no meu trabalho na indústria, crescíamos a passos largos. Eram recordes após recordes e o espaço físico de trabalho continuava o mesmo apesar do crescimento de recursos humanos e materiais.
Era época de implantar a qualidade total no ambiente de trabalho. O tema 5S surgiu como uma luva às nossas necessidades de melhoria e otimização do espaço físico.
Desenvolvi o trabalho com mérito "5S - Uma forma de conviver melhor" que me rendeu uma viagem a Bahia para apresentação em um Seminário de Qualidade e uma ida à Caixa Econômica Federal sede no Rio de Janeiro para também apresentá-lo.

Gosto de ler temas de organização em blog pela rede social, mais por pura curiosidade.

Surpresa fiquei quando encontrei o livro "A mágica da arrumação" no quarto de minha filha.
Ela comprou pois necessita muito controlar toda a bagunça a que vive rodeada.
É uma pessoa um pouco compulsiva e vive enchendo os armários e gavetas de itens de que gosta e em seguida acredita que doar quase todos, esvaziar tudo dá uma sensação de organização. O problema é até quando novos itens retornarão em sua vida, em sua rotina de vida.
Já havíamos conversado sobre como um ser humano não tendo a habilidade nata de classificar e organizar seus pertences, ainda assim, pode se esmerar e usar técnicas que o ajudarão a se organizar.

Obvio que li o livro em dois tempos. A linguagem é leve e aborda detalhes do dia-a-dia com muita habilidade.

A autora Marie Kondo, palestrante e consultora, aos 30 anos conta como gosta do tema desde os 5 anos de idade e que na juventude teve oportunidade de pesquisar sobre organização o que a tornou especialista no tema.
Seu método é simples, porém transformador. Em vez de basear-se em critérios vagos, como "jogue fora tudo o que você não usa a um ano", ele é fundamentado no sentimento da pessoa por cada objeto que possui.
O ponto principal da técnica é o descarte. O objeto a ser dispensado passa pelo crivo da análise do tema alegria. O objeto te proporciona alegria? Permaneça com ele. Se a resposta for negativa, se desfaça. Doa ou jogue fora.
A partir do que te trás felicidade, a segunda etapa é partir para a classificação e organização.
Rodeado pelo que você ama, você se tornará mais feliz e motivado a criar o estilo de vida com que sempre sonhou.
E isto passa pelo quesito livros, inclusive ela dá a dica para após a leitura do livro dela, fazer a mesma pergunta e seguir adiante organizando não somente a estante, mas a própria vida.

A mágica da arrumação / Marie Kondo; tradução de Marcia Oliveira; Rio de Janiero: Sextante, 2015

- Por que não consigo manter minha casa organizada?;
- Em primeiro lugar, descarte;
- Como organizar por categoria;
- Arrumando suas coisas para ter uma vida sensacional;
- A mágica da organização transforma sua vida.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

David Gilmour - O clube do filme


David Gilmour - O clube do filme

Livro autobiográfico, em que o crítico cinematográfico Canadense David Gilmour discorre sobre como utilizou de sua paixão, a arte, especificamente, o cinema, para aproximar-se do filho adolescente, onde o rapaz poderia deixar de estudar desde que juntos assistissem a três filmes semanais. 
Jogou todas as fichas. Vislumbrava o tempo que teriam juntos para discutir a arte cinematográfica que tanto de realidade poderia fazer um jovem enxergar além de suas decepções amorosas e vida desregrada mas não somente: vislumbrava um tempo de convivência, de resgatar um tempo certamente quase perdido em relação à educação do filho que se absteve durante uma vida de trabalho e separação familiar.
No desenvolvimento da obra, há momentos em que o autor discorre demasiadamente em detalhes da narrativas e em outros onde seriam importante maiores detalhes para entendimento de passagem de fase de desenvolvimento do personagem central, o filho, há um pulo no espaço de tempo, ficando a reflexão da superação do personagem quanto a suas angústias para entendimento do leitor. Necessitando do leitor um entendimento, para compreender o amadurecimento do personagem por si só. Amadurecimento este que fica na forma como foi mostrada, a desejar.
O livro é uma amostra, um laboratório das relações humanas, voltadas para o papel da educação que os pais deveriam exercer sobre a vida dos filhos, não esperando somente que a escola ou sociedade o cumpra.
Essa sensação de laboratório podemos ver ao longo da narrativa, como tentativa e erro, onde o pai busca acertar mas escrever a obra foi talvez uma forma de se redimir das incertezas que vivenciou em relação à educação do filho.
Talvez o ponto fraco da narrativa seja a exclusividade da narrativa centrada no pai e filho e deixando outros personagens como mero coadjuvantes, ou seja, a mãe do menino, a esposa do depoente, e pasmem vocês, a somente citada irmã do rapaz problemático somente nos agradecimentos. Sim, é uma família um tanto invisível, certamente.
Certamente a expectativa de discorrer uma lista de filmografia desperta o interesse pelo livro. Nesta parte, por ser longa, nem todos os filmes são detalhados, ficando apenas a dica ao leitor dos melhores e piores filmes, pelo crítico cinematográfico, autor da obra. Vale entretanto, reflexões acerca dos detalhes que podem prender uma pessoa a um filme, como simplesmente pelo prazer de diversão e não tão somente pela mensagem intrínseca da obra.

O Clube do Filme - David Gilmour; tradução de Luciano Trigo. - Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Varlam Chalámov - Contos de Kolimá





Varlam Chalámov - Contos de Kolimá


NA ESTANTE, por Fernanda Pompermayer, Cidade Nova, Outubro 2016 - n.10

"Se você já leu Recordações da casa dos mortos, de Dostoiévski, ou Arquipélago Gulag, de Alexander Sljenítsin, não pense que Contos de Kolimá é só mais um relato da vida nos campos de trabalhos forçados da Sibéria.
Nos anos negros da era stalinista, milhões de cidadãos russos e dos países satélites que formavam a União Soviética foram hóspedes do complexo prisional siberiano. O fato de conhecer algum dissidente do regime ou de fazer qualquer menção que configurasse contrariedade ao governo já era suficiente para ser considerado "contrarevolucionário" e, portanto, preso e deportado.
Em 1924 o escritor russo Varlam Chalámov (1907-1982) difundiu cópias da carta que Lênin escrevera aos membros do Comitê Central do Partido Comunista, chamando a atenção para a monopolização que Stálin provocava na Rússia. Não deu outra: foi condenado a cumprir pena de três anos em Kolimá, região desolada no nordeste da Sibéria. Em 1937 foi preso novamente, dessa vez por 17 anos.
Contos de Kolimá é o primeiro livro da série de seis que relatam o ciclo completo da experiência de Chalámov em Kolimá.
O autor conta que, sob qualquer temperatura, os trabalhadores eram obrigados a caminhar até seus locais de trabalho. "Mesmo sem termômetro", relata, "Os prisioneiros antigos mediam o frio quase com exatidão: se há nevoeiro gelado, na rua faz quarenta graus abaixo de zero; se o ar da respiração sai com ruído, então , quarenta e cinco graus, o cuspe congela no ar".
O fundamentalismo de uma ideologia levado às últimas consequências foi capaz de extirpar da alma dos algozes qualquer resquício de respeito pelo ser humano. A selvageria e a brutalidade atingiram requintes inimagináveis. Fome, frio, descaso, humilhações, imundície, agressões físicas e fuzilamentos substituíam o pão cotidiano (que faltava!).
Se os ossos podiam congelar, também o ce´rebro podia congelar e embotar, também a alma podia congelar. No frio intenso, não era possível pensar em nada. Tudo ficava simples.
Segundo a escritora Irina P. Sirotínskaia, "O livro é endereçado à alma de todos os homens.
Chalámov, intencionalmente, rejeita toda literariedade pensada que posa afastar o escritor do leitor, uma literariedade "sacrílega para um tema como esse'". Esse tema - continua Sirotínskaia - "exige que o leitor tome parte na criação, na dor, nas emoções, na raiva. É infinitamente sincero, infinitamente verídico".
Narrativa forte, impactante, palavras amargas, descrições sinistras?
Com certeza. Contos de Kolimá, obra-prima de Chalámov, não é um livro para passar o tempo. É um relato meticuloso de uma parte da História que felizmente ficou para trás. Mas sua leitura é também uma brecha que se abre para conhecermos e refletirmos sobre o significado de uma época recente. Ela é reveladora das consequências antropológicas da exacerbação de uma ideologia, do culto à personalidade e da sede desenfreada de poder. Assim como o Holocausto judaico, é uma experiência "para não esquecer".
Como afirma o escritor Boris Schnaiderman na apresentação do livro, "esses contos de Chalámov enquadram-se, com toda a certeza, entre os documentos humanos mais fortes que o atribulado século 20 nos legou"."

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Galinho - Lígia Guedes Joaquim


Cartas e pássaros - Lígia Guedes Joaquim

Galinho ofuscava os olhos observando o jardim de margaridas reluzentes sobre as casas.
Pelo brilho que emitiam calculava que o dia ia à meio.
O olhar mudou de ponto.
Os barcos não retornaram, ficando apenas os enormes cargueiros que pela distância pareciam vermelhos barquinhos de papel, como os da bacia no quintal de sua infância.
A água do mar parecia brilhar mais que as parabólicas lá embaixo na cidade.
O sol escaldante impedia o raciocínio. Que dia seria? Que importava saber?
Permanecer no mirante tendo a cidade como distração era sua passagem do tempo.
Olhar a igreja com o Cristo azul de braços abertos a certeza de que vivia.
Azul. Quem pintou o Cristo?
O carteiro arrastando a bicicleta morosametne na subida do morro indicava que não chegara o fim da tarde.
Tempo de parcos recursos pelo trabalho que insistia em executar. Já o destituíram do posto sabia disto. Permanecer lhe rendia algumas parcas moedas vez por outra. Suficientes para o dono do bar não lhe pedir para sair do estabelecimento diariamente frequentado.
A fome apertou.
Já não sabia quantos dias estava sem ir a casa da velha lá embaixo do morro. Única que lhe atendia com uma refeição e um sermão. A exigência de sempre: levar o pote doado. Lembrara que fora verejado pela janela na última noite junto com a sua urina.
desceu vagarosamente em direção ao seu barraco.
A fome teria que esperar.
Pelo menos por mais um dia.

Cartas e pássaros / Lígia Guedes Joaquim - Rio de Janeiro : MDM Editora, 2015.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A cigarra e a Formiga - Fábula I - La Fontaine - Fábulas - Vol. I



La Fontaine - Fábulas - Vol. I

FÁBULA I

A CIGARRA E A FORMIGA

Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso estio.

A formiga nunca empresta,
Nunca dá por isso junta.
"No verão em que lidavas?"
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: "Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
- "Oh! bravo! - torna a formiga -
Cantavas? Pois dança agora!"


La Fontaine Fábulas, ilustradas por Gustavo Doré, Vol. I e II, editora Landy, 2003.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Lis Guedes - Fotografia



"Todo retrato é um auto-retrato"

Na fotografia mantenho viva a criança que nunca parou de sonhar. A criança criativa que vivia imersa em papeis, tintas, pincéis e tesouras. Cada história para mim, é uma grande tela, onde ao registrar, combino as cores, texturas, sombras, luzes e nuances. Amo a vida e pessoas, pessoas que são reais, que sorriem, choram, abraçam, criam laços e que um dia se vão. Fotografo porque tenho saudades, saudades do momento, saudades das fases, das pessoas. Eternizar o segundo que nunca mais vai voltar, e amenizar a saudade de alguém, é uma grande responsabilidade, sobretudo um grande prazer.
A vida é tão rara, e perdemos sempre tempo demais com as coisas que não importam.. quero, ao meu modo, e mesmo que seja pouquinho, resgatar este tempo perdido.
Por isso, fotografo.



“Atenta e intensa
Comunicadora e criativa
Repleta de alma
Técnicamente sensível
Assim se desenha Lis, por entre linhas de luz, cor e poesia
Captados fugazmente por suas doces lentes:
Retinas, óculos e objetivas.”
(Carla Guedes Braga)


















quinta-feira, 23 de junho de 2016

Anthony Doeer - Toda luz que não podemos ver


Toda luz que não podemos ver - Anthony Doerr
NA ESTANTE, por Fernanda Pompermayer, Cidade Nova, Junho 2016 - n. 6

A história de uma garota cega, filha do chaveiro do Museu Nacional de História Natural de Paris, em meio à Segunda Guerra, esconde e revela uma trama: Toda luz que não podemos ver. Assim como em A menina que roubava livros, de Markus Zusak (também da Editora Intrínseca), o livro enxerga o grande conflito mundial a partir do olhar da população comum, que viveu os seus dramas na França ocupada pelas tropas de Hitler e na própria Alemanha. Marie-Laure ficou cega aos seis anos de idade. Para que ela tivesse um mínimo de mobilidade e de orientação espacial, o pai constrói uma maquete do bairro onde moram. 

Aprende a ler em braile e, apesar dos parcos recursos do pai, ele presenteia a amada filha com Vinte mil léguas submarinas, de Júlio Verne

A menina devora o livro, o relê, lê pela terceira vez. A ausência da visão aumenta ainda mais sua capacidade de fantasiar e de sonhar.

Assim, os acontecimentos reais encontram na sua imaginação um paralelo com o Capitão Nemo e suas aventuras náuticas.

Com a chegada dos nazistas a Paris, pai e filha fogem para a cidade costeira de Saint-Malo, onde esperam encontrar abrigo na casa de um parente.

Enquanto isso, na Alemanha...o jovem órfão Werner, pouco mais de uma criança, vive o temor de uma convocação para a frente de batalha.

Na pequena cidade carvoeira onde mora, "vagões de carvão rangem na escuridão úmida. Máquinas ressoam à distância: pistões martelando, esteiras girando. Suavemente. Insanamente".

Aficionado por tecnologia, Werner torna-se um excelente técnico autodidata. Recrutado pelo exército alemão, ele será um soldado importante para desbaratar a rede de transmissões clandestinas dos Aliados. Mas o garoto de 15 anos é assaltado por questionamentos que não querem calar. Pureza racial, pureza política (...). Na calada da noite Werner medita: a vida não é uma espécie de corrupção? Uma criança nasce e o mundo se apossa dela. Arrancando coisas dela, alojando coisas nela. Cada porção de comida, cada partícula de luz entrando no olho - o corpo nunca pode ser puro. Mas é nisso que o comandante insiste, o motivo pelo qual o Reich mede o nariz de cada um deles, avalia a cor de seus cabelos.

Durante a ocupação de Saint-Malo, as histórias de Werner e de Marie-Laure se cruzam.

Em agosto de 1944, a histórica cidade murada de Saint-Malo, a joia mais esplendorosa da Costa da Esmeralda, na Bretanha, foi quase totalmente destruída pelo fogo... Das 865 construções no interior das muralhas, apenas 182 permaneceram de pé, e todas sofreram algum tipo de dano (da Epígrafe).
Lá fora, pela janela, ouve-se o ronco de um caminhão ganhando vida. 
Passam gaivotas, zurrando como asnos, e à distância as armas voltam a estourar, e o ronco do caminhão diminui, e Marie-Laure tenta se concentrar e reler um capítulo anterior do livro: fazer os pontos em relevo se tansformarem em letras, as letras em palavras, as palavras em um mundo.

O barulho aterrador alterna-se com longos silêncios, não menos assustadores. Marie-Laure reflete:

O silêncio é fruto da Ocupação; está suspenso nos galhos, jorra das calhas. Madame Guiboux, mãe do sapateiro, saiu da cidade. Assim como a idosa madame Blanchard. Tantas janelas estão às escuras. É como se a cidade tivesse se tornado uma biblioteca de livros escritos em uma língua desconhecida, as casas, em grandes prateleiras com volumes inteligíveis, todas as luminárias apagadas.

Longe de ser um romance açucarado, essa obra de Doerr é um retrato realista. É uma história que poderia muito bem ter acontecido.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Festival Varilux de Cinema Francês 2016


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Festival Varilux de Cinema Francês 2016


O Festival Varilux de Cinema Francês ocorrerá em 50 cidades brasileiras, no período de 08 a 22 de junho de 2016, com duração de uma semana a mais.



A programação contará com 15 filmes inéditos e um grande clássico do cinema francês.

Imperdível!


sábado, 14 de maio de 2016

Allison Hoover Bartlett - O homem que amava muito os livros.

O homem que Amava muito os Livros -
Allison Hoover Bartlett

NA ESTANTE, Revista Cidade Nova, Maio 2016 - n. 5, por Fernanda Pompermayer.

Este é um livro para amantes de livros. É a história real - ocorrida nos Estados Unidos, na virada do milênio - de uma escritora em contato com um famoso ladrão de livros raros (John Gilkey) e um livreiro-detetive (Ken Sanders) cuja meta é capturar o ladrão.

O que leva uma pessoa a roubar?

A roubar não por necessidade, mas por um capricho intelectual? Por aspirar ao status que uma biblioteca repleta de obras valiosas e incomuns confere? Será apenas a ambição pelo poder? "Eu não podia conceber o poder que os livros exerciam para motivá-lo a arriscar-se continuamente a passar um tempo na prisão por sua causa", declara Bartlett.

Há uma enorme quantidade de livros "que custam mais do que Gilkey pode ou deseja pagar por eles; por isso, ele os rouba", admite a autora. "Isto, segundo a sua lógica, é apenas uma correção aplicada ao sistema."

Para o crítico cultural Walter Benjamin, "a posse é a relação mais íntima que alguém pode manter com os objetos. Não que (por meio da posse) estes se tornem vivos para seu possuidor; mas este torna-se vivo através deles."

Além de analisar os meandros da psicologia humana, essa obra de Bartlett é uma verdadeira excursão guiada pelo universo dos livros, livrarias, bibliotecas, com todos os tesouros que encerram.

Encontrar-se em meio a tantos livros tão cativantes é uma experiência inebriante, mesmo para o amante de livros moderado; mas para Gilkey, tratava-se de um acontecimento tão importante quanto inesquecível e vertiginoso (p. 56).

Gilkey deu vasão à sua compulsão em grandes feiras de livros,na visita a bibliotecas e, principalmente, com a "aquisição" em livrarias especializadas em raridades. O ladrão costumava aplicar calotes milionários, com cheques sem fundos ou débito em contas falsas. Essas manobras Mas o levaram à cadeia diversas vezes. Mas era só voltar à liberdade que os roubos tornavam a acontecer. A pergunta que não queria calar na mente de Bartlett era: seria Gilkey um homem normal ou mentalmente doente? 

Através de sua coleção, Gilkey poderia ocupar uma posição reverenciada, em um mundo idealizado. Talvez ele fosse apenas um pouquinho mais louco do que as outras pessoas (p. 161).

Não pretendia perder o contato nem com Gilkey, nem com Sanders. Nós três éramos buscadores muito persistentes: Gilkey, por livros; Sanders, pelos ladrões de livros; e eu, pelas histórias de ambos.
O que eu não poderia ter adivinhado era que o meu papel na história se tornaria mais complexo. Deixaria o papel de observadora objetiva, para entrar diretamente no enredo (p. 153).

Os livros podem nos enraizar em algo  maior do que nós mesmos, algo real. Por este motivo, creio que os livros encadernados, feitos de papel, sobreviverão, até mesmo muito tempo depois de os livros eletrônicos se tornarem populares. Quando caminho por uma rua e vejo pessoas passarem poor mim, absortas no universo dos seus i-Pods ou telefones celulares, não posso evitar pensar que a nossa conexão com os livros ainda é, após todos esses séculos, tão importante quanto intangível. É essa conexão que torna os velhos livros que pertenceram aos meus pais e aos meus avós tão especiais para mim... (p.166)

Antes mesmo que O Homem que amava muito os livros fosse impresso o "bibliodetetive" Sanders alertou seus colegas livreiros sobre o mais recente golpe de Gilkey, no Canadá. E o personagem principal deste livro ainda não tinha sido preso.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Vivian Maier - Uma fotógrafa de rua.

Vivian Maier - Uma fotógrafa de rua

Presenteei a minha filha que está se aventurando na arte da imagem, Lis Guedes - Fotografia, com o livro Vivian Maier - Uma fotógrafa de ruaeditado por John Maloof, prefácio de Geoff Dyer, editora autêntica.



É um livro de muita vivacidade. As imagens saltam aos olhos.




Vivian Maier, uma babá profissional que, entre os anos 1950 e 1990, tirou mais de 100.000 fotografias pelo mundo - da França a Nova York, a Chicago e a dezenas de outros países - e não as mostrou a ninguém, por mais de 50 anos, mais precisamente.



Vivian Maier tinha um interesse profundo pelo mundo ao seu redor. Começou a fotografar por volta de 1950 e continuou a fazer instantâneos até o final da década de 1990, deixando um conjunto de trabalhos que compreende mais de cem mil negativos. 



Há alguns anos, John Maloof, um historiador local, comprou de uma casa de leilões de Chicago uma caixa com os negativos de Maier. Ele então começou a colecionar e a promover sua maravilhosa obra, que finalmente viu a luz do dia.


Populares idosos reunidos no antigo reduto polonês de Polish Downtown, nobres senhoras vestidas  com espalhafato e a experiência afro-americano urbano: tudo atraía a lente de Maier. Seu gênio se estende a uma série de filmes caseiros e gravações de áudio. Um pouco de cultura norte-americana, a demolição de marcos históricos para a construção de novos empreendimentos, as vidas invisíveis dos oprimidos e desvalidos, assim como cenas de algumas das localidades mais estimadas de Chicago são temas continuamente revisitados por Maier.



"Vivian Maier representa um caso extremo de descoberta póstuma; de alguém que existe unicamente nas coisas que viu. Maier não apenas era totalmente desconhecida no mundo da fotografia, como ninguém parecia sequer saber que ela tirava fotos."

(Geoff Dyer)


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